Até hoje lembro da correria, se forçar um pouco mais lembro
até das vozes. A Brigada era o principal ponto de encontro daquela galera. Não
lembro quantos, mas com certeza eram muitos entre meninos e meninas.
Logo cedo já tinha gente na quadra, o problema geralmente
era conseguir a bola, que sempre era do perna de pau, para a infelicidade de
todos os bons de bola do mundo. E já sabe né, alguém vai ter que escolher ele
para ficar no time, se não, a bola vai embora. Salva às vezes que o Sargento
liberava a bola porque não era dia de ensaio do pelotão ou haveria treino dos
guris mais velhos.
Passávamos a tarde inteira jogando bola, inventando
xingamentos, brincando de esconde-esconde (que valia para a cidade inteira),
brigando, namorado e todas aquelas coisas que crianças acabam descobrindo
juntas.
Parecia que o mundo era só isso. Raras foram às vezes em que
não estive por lá, já que bastava atravessar o campinho no fundo do pátio que
já estava com o pé na quadra.
Muitas vezes tive que sair no meio da diversão, quando a mãe
gritava pela basculante, todo mundo sabia.
Em coro eles avisavam: - Nanda, tua mãe tá chamando, corre lá!
Eu já sabia que era para ir à venda da Delma, ou na padaria do Paulo Ênio, ou no mercado do seu Alcindo. E lá ia eu,
atravessando o buraco da tela para chegar mais rápido e também voltar mais
rápido.
Os dias passavam assim, felizes. E o tempo passou tão rápido
que quase nem percebemos.
Um grande homem me ensinou que o que é bom não dura para
sempre. Tivemos a certeza disso quando ele foi embora. A quadra perdeu
totalmente a graça, não tinha mais time, não tinha mais pelotão mirim, ou pelo menos sobreviveu uns meses a mais, e também
não tinha mais os gritos do Sgt Born. Não tinha mais apelidos: beiçolina,
Xaropinho, patinha, enfim, sobrou muito pouco. A Brigada voltou a ser a Brigada
Militar, não tinha mais aquela magia. E nós voltamos as nossas vidas.
Hoje quando passo pela Brigada vejo a quadra abandonada,
vejo o vazio e consigo perceber que, as melhores coisas não duram para sempre, mas,
podem sim permanecer. É impossível não
sentir saudade daqueles momentos, daquelas risadas, dos ensinamentos, das
brigas por futebol, dos amigos, das brincadeiras e principalmente daquele que
foi o responsável por unir e toda aquela criançada, (com uma paciência
gigantesca) e enxergar nelas a capacidade de se tornar pessoas melhores.
Obrigada.
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
(Carlos Drummond de Andrade)




